ComunidadeProfessor José Silveira Machado: “Açoriano de nascimento, mas macaense de alma e coração”

O escritor, professor e jornalista foi homenageado postumamente. Na ocasião, amigos e familiares recordaram a sua vida, e revelaram algumas histórias inéditas. 
16 de Outubro, 20192818 min

Decorreu ontem, no Auditório Adriano Moreira da Sociedade de Geografia de Lisboa a homenagem ao Professor José Silveira Machado. A iniciativa foi organizada pela Comissão Asiática e contou com a presença do amigo Jorge Rangel e de António Arestas, que assumiu o papel de orador. 

 

Professor

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Num discurso emotivo e saudoso, Jorge Rangel recordou o seu fiel amigo português que muito o acompanhou durante a sua estadia em Macau. “Eu conheci-o num tempo em que Macau era completamente diferente. Ele era daqueles professores que tinha sempre tempo para estar com os jovens e os estudantes, além de todas as outras actividades e funções que estava inserido”. 

Professor, de escritor e de jornalista, José Silveira Machado “foi um homem do mundo. Ele não se fechou dentro de uma quinta para pensar naquilo que ia escrever, como muitos escritores fazem. Ele viveu intensamente a sua vida.  Nós encontrávamo-lo em todo o lado, desde campos desportivos, recintos culturais, na rua, até aos becos de Macau, nas ruas da cidade velha, da parte chinesa de Macau”.

Deste modo, o professor foi um homem verdadeiramente notável, um homem do mundo. “Ele viu e escreveu o mundo, não o imaginou na sua escrita. Foi ter com as pessoas e o que ele escreveu foi exactamente as experiências em Macau e também aquilo que ele gostaria que Macau fosse”.  

Foi o próprio ex-secretário para a Administração, Educação e Juventude e atual Presidente do Instituto Internacional de Macau que sugeriu à Comissão Asiática que houvesse uma sessão dedicada, não só a José Silveira Machado, mas também “a todos os portugueses que deixaram em Macau os seus contributos e que não eram, não foram e não são conhecidos em Portugal”. 

Um carismático homem das letras, dividido entre a poesia, o ensino e o jornalismo 

Para esta sessão, foi atribuído ao investigador português, Dr. António Aresta, o papel de orador. O objetivo era simples: Recordar a vida do Professor José Silveira Machado. 

O seu discurso dividiu-se em três momentos. “O exílio, de quem foi dos Açores para o Seminário de Macau, depois a solidão, de quem está longe da família, e, posteriormente, o orientalismo, que formou a sua personalidade.

José Silveira Machado chegou a Macau em 1933 com apenas 15 anos de idade para estudar no Seminário de São José. O seminário era uma antiga e prestigiada instituição educativa da diocese de Macau, fundada em 1728 e com uma longa tradição na hospitalidade e acolhimento de jovens que eram destinados à carreira eclesiástica. Vivia-se o amanhecer do estado novo sob o domínio de António Oliveira Salazar. 

Numa das suas obras publicadas, o escritor conta como foi parar a Macau: 

“Como se deu a minha vinda para tão longe? Meu pai era lavrador e tinha uma criação de vacas leiteiras, pois sou natural de São Jorge, a ilha do queijo e da manteiga, mas nunca tive queda para a lavoura, nem para a pastorícia. Eu queria era prosseguir estudos, o que não era possível na minha ida e o meu pai não tinha meios para me mandar para fora. Foi então que um missionário de Macau, que era natural da Ilha do Pico, foi de férias aos Açores e fez convites a alguns rapazes para virem para Macau.

Eu aceitei logo e apesar de ser o filho mais velho, os meus pais não se impuseram. A viagem fez-se ao ritmo das horas na imensidão de mares e continentes. Trajetória como ponto de partida do mar atlântico, e ponto de chegada no rio da pérola. Rota de sonho, de encanto e de magia (…) E assim, cá vim parar na companhia de mais 5 rapazes, dos quais apenas um se ordenou sacerdote.

Tive no seminário grandes mestres, quase todos jesuítas, com exceção do então mediático Manuel Teixeira (…)  Tínhamos, de facto, muitas atividades escolares, muitos passeios. Naquela altura, podíamos passar as portas do cerco sem qualquer problema. Quantos passeios eu dei à China. Nesses passeios, íamos muitas vezes à Ilha da Lapa”.

Na época, o estudo da língua chinesa não era leccionado, nem sequer era considerado como uma estratégia de ensino, o que não deixa de ser estranho, já que se tratava de uma cidade chinesa. “Nunca tive aulas de chinês, mas no recreio da noite, antes da hora de dormir, constituíam-se grupos de alunos portugueses e chineses, que eram obrigados, num dia a falar português no outro dia a falar chinês. Foi assim que aprendi algum chinês que falo”. 

Eram tempos muito duros e heróicos, esses em que as crianças e os adolescentes cruzavam os continentes e os oceanos para servirem causas transcendentais. Sem o apoio da família, enfrentavam um mundo completamente diferente, adaptando-se à geografia física, passando pela cultura, pela língua ou pela gastronomia. 

Durante o seminário, o professor sentiu desde o início que não teria qualquer vocação para avançar no mundo sacerdócio, e, de uma maneira insólita, os acontecimentos foram surgindo, acabando inclusive por abandonar os estudos. “Eu tinha a mania de ser poeta, de escrever poesia, que guardava na gaveta da minha carteira de estudo. Um colega foi lá, tirou o poema de cariz amoroso e distribuiu por outros alunos.

Isso chegou ao conhecimento do prefeito e do reitor, que ficaram muito escandalizados e preocupados. Fui logo separado do resto da comunidade e metido num dos quartos que havia nas caves e como tive que sair do seminário, não terminei o curso de humanidades, que só vinha a fazer depois quando já era homem”. 

A saída no seminário foi um salto no desconhecido. “Quando sai, era praticamente um desconhecido em Macau. Sem família e com poucos amigos, o José Santos Ferreira foi para mim mais que um amigo, proporcionou-me um acontecimento que eu nunca mais esqueci. Ele teve uma influência muito grande em toda a minha vida”.

Foi com este amigo que o escritor começou a conhecer verdadeiramente as características, as culturas, e a gastronomia de Macau, acabando por se integrar na comunidade e conhecer importantes pessoas que ajudar a construir alguns dos acontecimentos da sua vida. 

José Silveira Machado “foi um carismático homem de letras dividido entre a poesia, o ensino e o jornalismo. O sucesso de Silveira Machado teve uma constante intervenção cívica na imprensa, essencialmente no Jornal O Clarim”.  Corria o ano de 1942 quando Silveira Machado, juntamente com José Patrício Guterres, Herculano Estorninho, Abílio Rosa, Gastão de Barros, José de Carvalho e Rego, Rui da Graça Andrade e Rolando das Chagas Alves fundaram o Jornal o Clarim. 

Em 1974, o escritor aposentou-se e decidiu ir viver para Lisboa, onde já viviam a sua mulher e a filhas. “Infeliz e pouco confortável num país no qual não se revia, o antigo seminarista acabou por regressar a Maca em menos de dois anos”. 

No fim do discurso, o Dr. António Aresta disse que ia escrever um livro sobre toda a vida do adorado José Silveira Machado e agradece a todos aqueles que conviveram com o professor, escritor e jornalista que contribuam para relembrar a importante vida e o importante homem que ele foi. 

Para nós filhas, o nosso pai foi o melhor pai que poderíamos ter. 

Em 1945, José Silveira Machado casou-se e, anos mais tarde, teve a sua primeira filha. “Foi em Macau que o nosso pai conheceu a nossa mãe, uma mulher muito bonita e muito meiga. Assim, logo que a guerra terminou, os nossos pais casaram-se em 1945”. Ao todo, o casal teve quatro filhas. Uma faleceu recentemente. 

Na homenagem, as três filhas estiveram presentes, deixando, aos presentes, algumas palavras daquilo que era José Silveira Machado como pai. “Não vou abordar as várias vertentes do nosso querido pai como escritor, poeta, professor e todas as outras funções que ele exerceu. Apenas vou falar do nosso pai como pai. Um pai que já completou mais de 100 anos. Quando decidiu sair dos Açores, mostrou a sua coragem, determinação e vontade de estudar”.

Lurdes Machado, a filha que discursou, admitiu que a sua família não era bafejada pela riqueza, mas nunca lhes faltou nada e reconhecem todo o esforço que o pai fazia.  

“O nosso pai para proporcionar uma boa vida à mulher e às quatro filhas, trabalhou arduamente nas horas vagas. Porém, mesmo assim, quando chegava a casa tinha sempre um sorriso para todas e permanentemente estava a par do que acontecia na família.

O nosso pai constitui-se como um grande homem, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu dinamismo e a sua simplicidade e a sua generosidade, mas, sobretudo, um grande pai que foi para as filhas. Tinha sempre um diálogo aberto e franco connosco. Para nós filhas, o nosso pai foi o melhor pai que poderíamos ter”.

A filha, num discurso mais emotivo, recordou os últimos sete anos de vida do pai. Confessa que, entre 2000 e 2007 ela e as irmãs foram por diversas vezes a Macau na esperança de o convencer a voltar para Portugal e viver os últimos anos de vida junto das filhas e mulher. A resposta era sempre a mesma. “O nosso pai dizia sempre que o seu lugar era em Macau e que queria lá morrer”. 

O Professor José Silveira Machado foi internado e morreu na tarde de 18 de novembro de 2007. Viveu durante quase setenta anos em Macau e deixou várias obras em domínios distintos como a educação, o jornalismo e o associativismo. 

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