ComunidadeCooperaçãoRelações diplomáticasRelações económicasRelações jurídicasFernanda Ilhéu: o rosto de uma ponte entre Portugal e China

Em entrevista, uma das maiores especialistas da relação comercial entre Portugal e a China, fala da experiência de ser a ponte entre mundos e diz porque faz sentido ser amigo da Nova Rota da Seda.
12 de Dezembro, 201923246 min
Em entrevista ao Nihaoportugal, Fernanda Ilhéu, uma das maiores especialistas da relação comercial entre Portugal e a China, fala da experiência de ser a ponte entre mundos e diz porque faz sentido ser amigo da Nova Rota da Seda.

Com uma longa a carreira, o rol de cargos de responsabilidade em instituições públicas e privadas, desenvolvida a par de permanente actividade académica, Fernanda Ilhéu é  Professora no ISEG, onde se licenciou e na Universidade de Macau, região onde trabalhou 18 anos, acumula experiência com reflexão. De movimento e discurso ágil e rápido, personifica a ligação entre mundos, ou melhor, a capacidade de formar, orientar, agregar, produzir entendimento e acção concertada entre realidades diferentes, culturas distintas, empresários e países em variadas fases de desenvolvimento. 

Ela é a ponte e uma das defensoras da grande iniciativa lançada pela China em 2013. Ela é mentora, fundadora e presidente da Associação dos Amigos da Nova Rota da Seda, agora a celebrar três anos de vida. A organização, essencialmente um grupo de reflexão especializado, assinala a data, lançando um novo livro, desta feita sobre a previsível evolução geoeconómica e geopolítica, focada na cooperação da China e dos Países de Língua Portuguesa, na Rota da Seda Marítima do Século XXI. Um trabalho colectivo de que Fernanda Ilhéu é uma das organizadoras e uma das autoras, que hoje é apresentado no Casino Estoril.

Após terminar o curso economia e ainda estagiária, Fernanda Ilhéu viu-se incluída num pequeno grupo, que de manhã à noite e durante um mês, recebeu formação intensiva de professores do Cambridge Institute de Massachusetts, chamados a Portugal pelo Fundo de Fomento de Exportação. Foi uma formação decisiva. E o início de muita preparação, feita antes, durante e depois da sua permanência de 18 anos em Macau, com pós graduações e doutoramento a aumentar a sua perícia em marketing, administração de empresas, comércio, exportação e negócios internacionais. Mas mais do que a acumulação de conhecimentos teóricos, a grande mais valia de Fernanda Ilhéu fez-se pelo arrojo e pronto arregaçar de mangas, com que aceitou sucessivos projectos e desbravou terreno para novas iniciativas e negócios, não da China, mas com a China, como a própria sublinha.

Do sossego à interactividade…do canal mais próximo

“Cheguei a Macau a 17 de Fevereiro e 1979. Era um local um pouco romântico, esquecido, um pouco adormecido. As horas custavam a passar, não havia muito para fazer para além do trabalho. As repartições públicas fechavam às 17.30 e nós tínhamos que esperar pelo jantar que era normalmente às 20.00. Demorava imenso tempo a passar”,recorda com um suspiro curto, como curto foi o tempo de sossego.

Funcionária pública em Macau, começa por lançar o Fundo de Desenvolvimento Comercial e de Industrialização e dinamizar o Departamento de Promoção das Exportações. E de repente, tudo começa a acontecer. Actividade não voltou a faltar-lhe. 

“Comecei a contactar a comunidade chinesa empresarial e a perceber de que forma poderíamos colaborar, como os orientar e apoiar na actividade, para eles essencial, da exportação. Obviamente não era no mercado de Macau que iam vender os produtos que fabricavam… Foi um trabalho fascinante, porque pude acompanhar o grande boom industrial que Macau teve na altura, primeiro sobretudo focado nos têxteis, com uma componente de brinquedos, flores artificiais, mobiliário e outros produtos menos importante mas que tinham um peso muito significativo na economia política de Macau naquela altura”.

“Os empresários de Macau estavam sentados nas suas fábricas à espera dos clientes que vinham normalmente de Hong Kong mas perceberam que com a nossa actividade podiam fazer os negócios directamente. Também perceberam que podiam ter negócios com outros países. Lembro-me que estivemos na América Latina, na Venezuela, no México e no Panamá. (Um desses empresários contou-me recentemente que ainda hoje faz negócios com o México.) Essa menor dependência de Hong Kong foi muito importante.”

“Havia grandes empresas que utilizavam Macau como fábrica, mas todo o poder de decisão estratégico estava em Hong Kong. Algumas empresas locais tinham crescido muito, encostados aos empresários de Hong Kong e estavam em posição de, elas próprias, entrar nos mercados internacionais e fazer negócios directamente. Levámos esses empresários para outros mercados, como os EUA, Países de Leste, Países de África de Sul. Houve um trabalho conjunto que me proporcionou um conhecimento maior do que seria normal numa pessoa integrada na função pública”.

Estava bem consciente das oportunidades e da importância do papel que desempenhava

“Estabeleci relações muito fortes e comecei a perceber a cultura e a forma de viver num mundo chinês. Viajávamos em missão para diversas partes do mundo e estávamos sempre em juntos, com uma forma de trabalhar muito interactiva. Eu podia estar a impulsionar a delegação, mas distribuía tarefas e todos tinham um papel a desempenhar e estavam sempre ocupados. Estavam ali empresários com posições económicas e políticas muito interessantes e o nosso trabalho era feito em conjunto. O meu princípio era trabalhar lado a lado, em diálogo, tudo discutido previamente e concertado com a comunidade industrial de Macau. Fazíamos uma análise dos mercados, da direcção que devíamos seguir. Não lhes imponha um programa.  Eu era o canal mais próximo…”.

A acompanhar a abertura chinesa ao mundo e a acumular contatos “fantásticos”

Ter acompanhado de perto a evolução da China, desde a abertura em 1979 , e ano em que chegou a Macau, foi um privilégio. Entrou primeira vez no país do meio, em 1980, como turista e de então para cá, não mais deixou de viajar China adentro. Em 1982 foi a Pequim e a Xangai. Em termos profissionais começou a colaborar com a China em 1984, integrando uma comitiva de empresários de Macau que lá foram para receber a mensagem que o governo chinês estava a passar para as comunidades chinesas ultramarinas, de que era fundamentalmente colaborem na abertura ao exterior. Tragam os vossos amigos, era a palavra de ordem.

A dinâmica que perpassa todo o percurso de Fernanda Ilhéu fez-se de pessoas, de comunidades e claro, de cargos institucionais, como o de directora do WTC de Macau. E a sua actividade deixou marcas.

“Trabalhava entre Macau e Hong Kong. Aprendi imenso. Hong Kong era a capital de negócios da China e estavam ali reunidas mentes brilhantes de vários países, quer na área política, quer na área económica e diplomática. Tive a sorte de conhecer muitas dessas pessoas, pessoas que tinham anos e anos de China, estavam preparadas pelos seus países para negociar e trabalhar ali. Foram contactos fantásticos”.

“Uma das preocupações que tínhamos era a formação de marketing e também de preparação dos recursos da indústria de exportação. Trabalhávamos com o Hong Kong Management Association que enviava empresários a Macau para dar aulas ao sábados e domingos. As fábricas mandavam os funcionários frequentar essas formações. Em determinada altura, questionei o porquê do contrato com Hong Kong, podendo nós fazer o mesmo directamente. Falei com o meu contacto lá, uma pessoa que conhecia todos aqueles gestores e técnicos, apresentei o projecto a empresários de Macau, conseguimos um grupo inicial de 14 fundadores e criámos a Macau Management Association, que até hoje existe”.

“O World Trade Center Portugal desafiou-nos a abrir um centro em Macau e por nomeação do secretário do governo de Macau, fui eu a fazer a comunicação entre as partes desta instituição. Na base, a iniciativa teve um impulso governamental mas depois foi feita em parceria com empresários de Macau, através de uma sociedade anónima. O governo de Macau atribuiu um terreno, onde então foi construído um prédio, com projecto do arquitecto Manuel Vicente, que ainda hoje lá está, mesmo ao lado do Hotel Grand Lapa. É um prédio emblemático, construído com uma lógica económica e política

O edifício ficou pronto em 1996, três anos antes da passagem administrativa da região, de Portugal para a China, ano do regresso a Lisboa de Fernanda Ilhéu. 

Levar Macau ao mundo e Portugal a Macau

 

Se nos primeiros anos Fernanda Ilhéu centrou a sua actividade em levar Macau para o exterior, depois começou a ocupar-se da expansão de Portugal para os mercados do mundo, nomeadamente para as áreas da sua competência, Macau e Hong Kong, apoiando os empresários portugueses naquela região.

“Em determinada altura tentou-se que os empresários portugueses se aproximassem mais, a investir, a participar na construção de infraestruturas, na exportação e no retalho. Comecei a funcionar como uma ponte também para o mundo português. Tomei a iniciativa de dialogar com a comunidade chinesa e com a comunidade industrial de Macau, expliquei-lhes estas ideias e eles aceitaram-nas. Fizemos uma aproximação, dissemos que tínhamos orçamento para os apoiar e trabalhar em conjunto.”

“É desta altura a primeira Feira Industrial de Macau, já com um pavilhão de Portugal e produtos portugueses, suportado financeiramente pelo Fundo. “Essa estratégia de aproximação, não teve tanto sucesso como se pretendia. Os empresários portugueses estavam numa grande fragilidade. E na altura, a preocupação era modernizar a indústria em Portugal para a integrar na União Europeia. Portugal não tinha a capacidade de responder à nossa visão, que era integrar Macau nos negócios portugueses e dali expandir para outras regiões da Ásia. Não para a China porque nessa altura a China ainda estava muito fechada. Mas para a Tailândia, Hong Kong, Coreia, Malásia, países que começavam a desenvolver-se, os chamados novos países industrializados e de que Portugal estava praticamente ausente nessa altura”.

Fernanda tinha sido chamada a criar a AICEP Macau. Permaneceu seis anos à frente da delegação. “Recebi instruções para pensar no futuro. Não esperávamos grande resultado a curto prazo mas sim reunir conhecimento na área. Nessa altura trouxemos para Portugal muita informação de Hong Kong, da China, de Macau e até de Taiwan. As empresas portuguesas não estavam preparadas e mesmo hoje algumas continuam sem capacidade de abordar estes mercados. 

Mas Fernanda Ilhéu estava bem preparada para o desafio seguinte, o de fazer entrar na China, a Mota & Companhia, a conhecida Mota-Engil, então nos primórdios da internacionalização. “Disse-lhes que queria trabalhar naquela parte do mundo e que estava a olhar para o mercado chinês. Em 1994, em consórcio com uma empresa de construção de Macau, a Cheong Kong ganhámos quatro concursos. Foi uma experiência muito interessante, uma outra maneira que tive de perceber o mercado chinês. Eu estava no meio, entre a empresa portuguesa e os quadros chineses, com quem trabalhava todos os dias.” 

Regressada a Lisboa mas sempre a fazer a ponte. Quase uma década da CCILC

Regressada de Macau em 1997, passa quase de imediato a ocupar o cargo de secretária-geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso Chinesa (CCILC) onde permanece quase uma década.  O conselho de administração da Câmara era então constituído por grandes empresas portuguesas, como a Portugal Telecom, a EDP, e a Caixa Geral de Depósitos, empresas que tinham de certa forma, negócios em Macau na China. “Era sobretudo um trabalho de mecenato, dirigido às pequenas e médias empresas que não tinham condições para entrar no mercado sem esse apoio”, explica. 

“Nessa altura e ainda hoje, grande parte dos empresários portugueses aproximam-se da China mais para comprar do que para vender. E grande parte do nosso trabalho era apoiar a importação deles e resolver os problemas dessas importações, porque na China é tão difícil comprar como vender. Eram empresas nossas associadas, recebiam apoio desde o princípio, na decisão sobre onde comprar os produtos, e depois em todo o processamento da importação. Claro que também apoiávamos os exportadores, mas eram menos”. 

“Neste momento, há outro tipo de atores na CCILC e outros empresas. Hoje, as empresas estão muito mais preparadas e as coisas alteraram-se muito. Agora, na exportação também temos grandes grupos que já têm lá escritórios e que estão a trabalhar muito bem. E também temos um conjunto muito grande de pequenas e médias empresas que continuam a precisar de apoio para conhecer o mercado e resolver os problemas lá. Mas já não estou tão por dentro do que a Câmara está a fazer. Penso que a vertente de gestão continua muito portuguesa, há muitos mais associados chineses, mais pessoas a trabalhar na estrutura e acho que o ambiente e o diálogo deve estar mais facilitado”.

Maneiras lusas e chinesas de estar nos negócios: Ritmo e respeito pela hierarquia são as diferenças mais evidentes

Fernanda Ilhéu regressou mas manteve a grande ligação que estabeleceu. Conhece e aprecia a forma chinesa de viver e trabalhar. “Ambas as comunidades, portuguesa e chinesa, generalizam coisas de uns e de outros. Há muitos perfis mas em geral os chineses arriscam muito mais e isso é muito visível quando se decide fazer algo em conjunto. Equacionam o problema mediante os seus parâmetros e dentro da sua lógica de negócio, decidem e vão em frente. Arriscam e fazem.”

“Os portugueses levam mais tempo porque entra o factor «e se isto não corre bem», «e quais são as consequências disto», «e se ele não é honesto»… tudo travões. Têm mais dificuldade em arriscar. O tempo de decisão é mais lento. E há outra coisa importante. Os chineses são altamente hierarquizados. A teoria de Confúcio diz claramente que o empregado obedece ao patrão, portanto o padrão manda fazer e o empregado faz. Pode não concordar, mas faz.”

Para melhor explicar esta filosofia, a também docente Fernanda Ilhéu recorda a impossibilidade de um aluno chinês dizer directamente, “o professor está errado”. O que eles fazem é  “procurar uma prova desse erro, fazendo-a chegar ao professor”, conta.  

“Em Portugal, não é esta a cultura. O patrão manda fazer e se o empregado acha que está mal, começa a colocar pauzinhos para criar entraves. São formas e ritmos de funcionar diferentes.” 

Sacudindo os ombros à ideia difundida de que, olhados pelo lado chinês, os portugueses parecem falar muito e fazer pouco, sustenta.”Nós fazemos, só que em ritmos muito diferentes e com os intervenientes a funcionarem de forma diferente no negócio””.

E parte para uma outra questão. A dificuldade em matéria de transparência dos grupos económicos.”É preciso saber quem está por trás, que tipo de actividade faz… Eu posso chegar a um sítio e ver uma pessoa cheia de dinheiro com um (aparente) negócio próspero. Mas pode não ser verdade. À vista desarmada, não podemos fazer uma análise destas coisas. Precisamos de ter profissionais com uma boa rede de contactos, com a banca, as empresas, as associações, as câmaras de comércio, de um bom networking”, conclui criticamente: “A maioria dos nossos empresários não quer pagar um estudo de mercado, fazem aquilo que é costume fazer. Vão à feira, mostram os produtos e aí encontram clientes ou conhecem pessoas que dizem que querem ser parceiro. Mas há excepções, há empresas que sabem como se faz e querem fazer bem.”

A Convicção que faz a amiga da nova rota da seda

Uma das iniciativas da Associação Amigos da Nova Rota da Seda é organizar uma viagem anual…pela velha rota da seda. E tudo o mais se baseia na firme convicção de que a China e o projecto, que se segue à abertura ao mundo lançada por Deng Xiaoping, o de ligar as várias regiões do mundo através de uma rota terrestre e de uma faixa marítima, traz prosperidade ao mundo no seu conjunto. É este o presente de Fernanda Ilhéu.

“Esta associação é uma forma diferente de ajudar a desenvolver os países que neste momento ainda têm grandes carências, e que por si só não conseguem alterar o círculo vicioso da pobreza. Por vezes são necessários estímulos externos, investimento estrangeiro, quando internamente não há capacidade. Não é um Plano Marshall e não tem a mesma prática. É um plano proativo, aberto ao mundo mas em os países têm que declarar à China que percebem as regras e estão interessados e preparados para essa cooperação”, explica a mentora da associação dos Amigos da Nova Rota da Seda. E adianta. 

“Esta associação é um pouco sui generis. Foi feita sobretudo para dar a conhecer aos portugueses o que está em jogo e sobretudo para permitir que Portugal tenha um papel importante na Rota Marítima do Século XXI. E estamos neste momento numa segunda fase do trabalho, que é ligar esta iniciativa aos Países de Língua Portuguesa.” 

O livro que hoje, ao final do dia é lançado,  assinala os três anos da associação, é exactamente sobre este tema, sobre como se estabelece a cooperação com a China, lembrando que “os países tem um trabalho de casa prévio, que passa por identificarem bem as necessidades que tem e o seu próprio plano de desenvolvimento. E depois perceberem o que é importante para a outra parte.  A China vai associar-se ao projecto se também lhe interessar, numa perspectiva que tem sempre a ver com o negócio global, com a globalização. “As pessoas às vezes não entendem bem, porque não vêm o circuito todo, e muitas vezes dizem que a China quer apenas comprar e vender infraestruturas, o que não faz sentido nenhum.”

A especialista em negócios com a China,fazendo jus à sua faceta de professora, discorre sobre processos de desenvolvimento

Muitos dos países africanos são muito pobres e não têm mercado interno. Têm que pensar em exportar. Precisam de mercado para o seu nível de produção, que inicialmente não é de alta qualidade. Muitas zonas da China, com muitos consumidores, são grandes mercados que ainda procuram produtos de baixo preço e não são exigem grande qualidade.”

E ilustra: “A indústria tem de começar pela agro-indústria, pelos recursos próprios de cada país.  Enquanto os países venderem os produtos em bruto, sem qualquer preparação, a um preço muito baixo, não conseguem sair do círculo de pobreza. Enquanto não tiverem as infraestruturas básicas, da água, da luz, da habitação, não têm condições humanas para progredir no conhecimento, no seu trabalho, no seu ritmo de vida, e terão sempre as dificuldades que têm hoje. Os governos têm que fazer outras coisas. Não é só construir um caminho de ferro é também fazer um enquadramento jurídico para o comércio internacional. Um país não pode querer ser um centro de negócios e ao mesmo tempo estar protegido por barreiras alfandegárias muito caras, porque as empresas privadas escolhem sempre os locais onde o negócio está a ser ajudado. E há infraestruturas físicas e estruturas humanas. Tudo isto é um conjunto que leva tempo mas que vai resultar a médio e longo prazo.”

Há uma militância nesta causa, um desdobrar de palestras, encontros, conferências. É o presente de Fernanda Ilhéu, resultado de 40 anos de atenção selectiva e direccionada

“A China já não está num crescimento exponencial. Não está e não pode estar. Cresceu 10% ao ano durante 30 anos. Estava na idade média em 1979, quando começou a abrir-se ao mundo. Tinha todo o tipo de carências.  E qual foi a estratégia? A estratégia foi abrir ao investimento estratégico as chamadas zonas económicas especiais.Um modelo que foi buscar à Irlanda, onde teve grande sucesso. E sendo que as condições de investimento eram muito atractivas, o país pobre e havia muita coisa por fazer, o crescimento foi enorme. Aí começou a expansão da china. Aproveitando os conhecimentos, equipamentos e a forma de trabalhar de países mais avançados. Agora a China não pode continuar a crescer 10% ao ano, porque atingiu um grau de desenvolvimento em que isso já não é possível. Há ritmos de desenvolvimento para países com pequeno rendimento e há ritmos para países como os da Europa, de que as economias chineses começam a aproximar-se.”

E sustenta com um exemplo. “A Zara durante muitos anos não tinham interesse no mercado chinês. Produzia na China, para exportar. Em determinada altura, percebeu que tinha uma classe média que conseguia comprar os seus produtos e abriu uma enorme rede de retalho. E isto já é outra fase do desenvolvimento chinês.”

A professora ilustra assim com o caso da China, o modelo de desenvolvimento dos países, no contexto da globalização: “A China efectivamente aprende com os outros, mas depois tem uma capacidade de inovação e de investimento enorme. É uma questão de analisar o número de patentes que são registadas, por exemplo, e analisar o que fazem os diversos centros de investigação da China”, diz  Fernanda Ihéu, a propósito da ideia de que a China aproveita e copia tecnologia que foi criada através do investimento (em investigação) de outros países.

A especialista em comércio internacional  sublinha que “o nascimento das empresas não se faz por auto geração mas porque há uma visão dos governos que cria condições para depois os privados lá trabalharem”. E lembra que em determinados sítios e nalguns sectores, a China também criou essas condições para as empresas privadas trabalharem.

Fernanda Ilhéu volta a referir a situação no continente africano, em que os países estão a precisar de ajudas especiais, e podem atrair investimentos estrangeiros com maior liberalização e incentivo fiscal, como já está a acontecer em na Nigéria, no Quénia, no Senegal. E chama a atenção:

“Qualquer empresário e qualquer comerciante tem sempre a preocupação que o outro ganhe alguma coisa. Senão não volta a haver negócio. Esta é a base do comércio e obviamente a China percebe isso bem, porque se há coisa que a China tem são excelentes comerciantes. Mas a forma como o mundo chinês e o mundo ocidental olham a realidade é diferente, e nesta fase é mesmo muito diferente”, enfatiza. 

“Quando as pessoas pensam que a China tem formas muito fora, do que são as regras de desenvolvimento económico estão erradas, porque a China aplica modelos de desenvolvimento económico que os EUA aplicaram e que a Europa adotou. Estudou o processo de desenvolvimento desses países, encontrou estratégias que lhe pareceram interessantes e segue as regras.”

Onde está a diferença, então? 

Fernanda Ilhéu responde: “Na tentativa de esvaziar a estratégia da China. Na guerra a que neste momento assistimos, pelo menos ao início de uma guerra comercial entre os EUA e a China. E está a ser feita tentando criar anticorpos a tudo o que é chinês.”

Como não podia deixar de ser quem tanto se aproximou da cultura chinesa, a nossa entrevistada é pragmática. E o pragmatismo é a doutrina que toma como critério da verdade o valor prático e se opõe ao intelectualismo. Para ela, o respeito pelos direitos humanos começa por garantir que ninguém passa fome. E “Vamos parar a China antes que”…é a proposta de quem se sente ameaçado na sua hegemonia. 

Fernanda Ilhéu, amiga da nova rota da seda, acredita que a China, a sua iniciativa e os memorandos de benefícios mútuos, são a verdade. Por isso a rota não deve ser parada mas incentivada. 

Apesar do cepticismo europeu em relação à Nova Rota da Seda, Portugal há já um ano que aderiu a este projecto.

 

 

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