CulturaNegóciosPoliticaBoom do mercado Chinês e boas relações entre os países podem ser melhor aproveitados

A análise de Sérgio Alves, Secretário-Geral da Câmara do Comércio e Industria Luso Chinesa, na 3ª Sessão dos Encontros de Estudos sobre a China , no ISCTE-IUL.
22 de Novembro, 20197310 min

O Secretário Geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa (CCILC) considera que “Portugal enfrenta um problema crítico na organização e no planeamento estratégico e tem desperdiçado oportunidades de negócio com a China”. Sérgio Martins Alves foi o orador convidado da 3ª sessão dos Encontros de Estudos Sobre a China, a decorrer no ISCTE-IUL, numa iniciativa organizada pelo Centro de Investigação de Estudos de Sociologia (CIES) e pelo Centro de Estudos Internacionais (CEI).

 

Mercado Chinês

Sérgio Martins Alves, Carla Fernandes e Thais França na 3ª Sessão dos Encontros Sobre a China

 

Foi em “registo testemunhal”, segundo as suas próprias palavras, que Sérgio Martins Alves falou, analisando a forma como tem sido politicamente geridas as muitas e inequívocas oportunidades económicas nascidas do bom relacionamento entre os dois países. Recorrendo às suas próprias experiências, ao facto de ao longo dos anos ter participado em numerosos processos que levaram ao estabelecimento de acordos entre organizações privadas e públicas, na área do comércio internacional com a China, sustenta que “nós, portugueses, podemos aproveitar muito melhor o imenso mercado chinês”.

“Acho que nós temos um problema crítico de relacionamento na internacionalização da economia. A nossa filosofia (a dos empresários) é muito a de seguir «em pista própria», o que é uma pena porque somos um país pequeno. Conheço exemplos de casos de sucesso no mercado chinês, que os responsáveis portugueses podiam partilhar e não o fazem”, explicou.

O especialista em relações internacionais e ciência política reconhece que “houve sensibilidade e um bom aproveitamento da nossa história com Macau”, mas ainda há falta de estratégia. “É possível uma pilotagem política junto da China, que em mercado aberto não é”. E explica. “A vantagem da China é que pode ser sensibilizada. Não pela nossa dimensão, que Portugal é demasiado pequeno, mas por uma questão de reputação e de aumento de credibilidade junto do mundo ocidental”.

Sérgio Martins Alves mencionou as posições extremadas, entre “os obstinados que olham a China como a galinha dos ovos de ouro e os alarmistas ou sino fóbicos, que a olham como uma ameaça”. E exemplificou. “Quando nós estivemos com a corda na garganta, intervencionados pelo FMI, e houve aquisições em áreas sensíveis do nosso mercado, o investimento chinês foi oportuno ou oportunista?”

As perguntas correctas são, segundo ele, “estaremos nós a fazer uma gestão inteligente deste investimento? Temos nós [portugueses] sabido aproveitar o boom da economia da China nos últimos anos? E responde. “O valor que recebemos pela EDP serviu para pagar dois anos de dívida pública. E não há que temer, por exemplo, pela Rede Eléctrica Nacional (REN). Eles não vão arrancar a rede e levá-la às costa (…)Eu sou defensor que uma boa gestão política teria sido aquela que nos conduzisse a investimentos infra-estruturais. Temos de desenhar uma relação mais consistente, que seja de interesse português e que ao mesmo tempo sirva os interesses chineses. Os investidores chineses adoram fazer negócios de material circulante e de alta velocidade e era bom ver a China nesses investimentos por cá”.

Na BRI (Belt and Road Iniciative), Programa Faixa e Rota, como é conhecido em português a iniciativa chinesa de criar nova ligação ligando vários pontos do globo, por mar e por terra, ao longo de todos os países que forem aderindo, “há mais de 300 mil milhões de euros disponíveis. E nós precisamos de ligações ferroviárias – há mais de 16 cidades europeias ligadas por via férrea à China – e de viabilizar Sines como grande porto peninsular. Se não aproveitarmos, a culpa é nossa”, remata o orador, adiantando que só para um segundo terminal seriam precisos cerca de 620 milhões de euros e recordando a falta de capacidade financeira portuguesa para concretizar o ambicioso projecto do porto de Sines que já é de 1971.

Para a China, a localização de Portugal afigura-se como um trunfo estratégico essencial para o sucesso do BRI, havendo muitas expectativas quanto ao nosso papel. Recorde-se que Portugal foi um dos primeiros países da Europa Ocidental a estabelecer uma parceria com este projeto.

Para além dos investimentos nos sectores da banca, energia, seguros e saúde, “o país tem seguramente a capacidade para atrair e conquistar os investidores chineses noutras áreas, com características mais industriais criadas de raiz. A construção de uma fábrica de desenvolvimento de baterias para carros eléctricos, por exemplo”. Sérgio Alves acredita que ainda há hipóteses para Portugal desenvolver parcerias estrategas com investidores chineses interessados neste mercado. O grande exemplo disso, é o Porto de Sines, um projecto “altamente pertinente e um activo cativante para a China”, uma peça-chave para a estratégia da Nova Rota da Seda.

Por último, o secretário-geral da CCILC, salientou que nesta estratégia geral em que a base é a cooperação, e em que a própria Câmara do Comércio com a sua vertente comercial serviu de âncora e catalisador para iniciativas diplomáticas, cabe às bases, aos empresários, aos estudantes, procurarem aumentar os seus conhecimentos sobre as características culturais e negociais chinesas e avançarem, de preferência coordenados, para o grande mercado. Com que serviços e produtos? Com todos, responde. A China é uma grande oportunidade. A CCILC ajuda a fazer a ligação.

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