SaúdeOpiniãoCovid-19: Agir preventivamente 

Artigo de opinião de Bernardo Mendia, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Hong Kong.
26 de Março, 202049115 min
Artigo de opinião de Bernardo Mendia, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Hong Kong.

Devo em primeiro lugar saudar a comunidade chinesa residente em Portugal e a portuguesa na China pela forma previdente e enérgica como preveniram Portugal do que estava para chegar. Fui testemunha e cúmplice de tudo isso. Sem prejuízo, um pouco por todo o mundo, assobiámos para o lado na expectativa de que aqui não chegaria. Hoje sabemos que estávamos redondamente enganados e agora a factura chegou na forma de morte e depressão económica. 

Por outro lado, não posso deixar de saudar os diagnósticos realizados nas repetidas intervenções dos poderes públicos, as soluções adoptadas em linha com as melhores práticas no resto do mundo e a liderança demonstrada pelo Primeiro-Ministro e Presidente da República de Portugal no âmbito da crise. 

Resta-nos neste momento lutar com todas as forças e recursos para mitigar o pior que está para vir no que à dimensão humana desta crise diz respeito, o espectro da morte. 

Nessa dimensão, a República Popular da China tem muitos conhecimentos e recursos para oferecer a Portugal, aliás na esteira do conceito introduzido pelo Presidente Xi Jinping de construção da Comunidade de Destino Comum da Humanidade. E Portugal precisa dessa ajuda. 

As autoridades portuguesas e chinesas estão em contacto para canalizar estas ajudas para Portugal e para os portugueses, sejam elas na forma de conhecimento científico, equipamento médico de protecção, ventiladores ou qualquer outra acordada entre as autoridades dos dois países. A iniciativa privada das duas partes tem-se igualmente multiplicado em acções que elevam para patamares absolutamente excepcionais a solidariedade, nomeadamente no âmbito da colaboração e entreajuda entre os dois povos, sem que seja necessário enunciar aqui os múltiplos exemplos.

No entanto, Portugal não terá que se debater apenas com a dimensão do problema de saúde pública. Efectivamente, em outras dimensões da crise, vamos ainda a tempo de agir preventivamente. 

Do ponto de vista económico, não me parece que seja solução injectar dinheiro nos mercados através de dívida. Aliás, isso corresponde apenas a infligir uma morte mais lenta às empresas, já que esse dinheiro terá de ser devolvido aos mercados mais tarde. Para tempos excursionais, serão necessárias medidas excepcionais, eventualmente nunca antes utilizadas em Portugal, incluindo efectivamente injectar dinheiro no bolso das pessoas e não nos mercados bolsistas ou bancários. 

É também necessário estancar os custos das empresas por três a seis meses, talvez mais. É essencial compreender que poucas empresas sobreviverão três a seis meses sem receitas e apenas acumulando dívida. As que resistirem inicialmente, terão poucas chances de vir a sobreviver no médio prazo. 

Como empresário e responsável de uma Câmara de Comércio, tenho muita esperança que as rendas, hipotecas, segurança social, IVA e pagamentos de empréstimos das empresas sejam integralmente congelados, sem burocracias ou obstáculos; e que à semelhança do que o Governo inglês fez esta semana no sector da restauração, que o Governo português pague cerca de 80% dos salários dos funcionários das empresas dos sectores que ficaram sem actividade. 

Na minha opinião, todas as empresas cuja actividade tenha sido permitida pelo decreto presidencial e respectivos regulamentos governamentais ficariam de fora dos apoios, enquanto as remanescentes deveriam aproveitá-los, incluindo a indústria do futebol que efectivamente emprega milhares de portugueses. Assim se poderia injectar o dinheiro nos bolsos das pessoas e salvaguardar a sobrevivência das empresas. 

Efectivamente, injectar euros nos mercados com um “V” de volta apenas desloca e agrava o problema das empresas. O dinheiro deveria ir para os bolsos das pessoas e não para os bolsos dos “mercados”. Aliás, deveria ser do interesse dos próprios mercados que assim seja de forma a evitar triliões de correspondentes defaults no médio prazoDir-me-ão que o Estado português não tem dinheiro. No entanto, eu diria que Portugal tem este ano um superavit orçamental e faz parte de uma União de países com um orçamento e um Banco Central suficientemente criativos para encontrar as soluções adequadas e ajustadas a soluções que coloquem a primazia nas pessoas.

Numa dimensão mais distinta desta crise, que também pode ser atempadamente prevenida — a dos ressurgimentos de crises após aparentes controlos territoriais —, temos como referência os exemplos mais recentes do ressurgimento de casos em Hong Kong e Macau. 

Sou de opinião que, até se descobrir uma vacina, Portugal não se pode dar ao luxo de ressurgimentos. O país e as empresas não aguentariam ressurgimentos, pelo que temos de implementar desde já verdadeiros tampões contra os ressurgimentos. 

O Gabinete de Crise recentemente criado e presidido pelo Primeiro-Ministro poderia e talvez devesse ser a entidade responsável por apresentar as medidas a adoptar para evitar ressurgimentos enquanto a vacina não for disponibilizada à população. Poderia o Gabinete de Crise analisar o que se passou em Hong Kong e Macau para obter desde já algumas dessas medidas preventivas. Assim, devolveríamos a segurança e confiança que as pessoas precisam. Com a vantagem de que, como em tudo o resto, se formos mais rápidos que os outros países, vamos também adquirir uma vantagem competitiva na captação de investimento estrangeiro assim que essa competição se renove.

Conforme se tentou expor, esta crise tem diferentes dimensões, com as quais nos teremos de debater em diferentes momentos. Não obstante os avisos da comunidade chinesa em Portugal e portuguesa na China falhámos na preparação atempada para enfrentar a dimensão do problema de saúde pública. Teremos agora de lidar com a questão económica e com a questão dos ressurgimentos, intimamente ligadas. Precisamos que os dirigentes políticos nos liderem não só a debelar o enorme problema de saúde pública, mas também que consigam antecipar respostas efectivas à dimensão económica do problema.

Considero que não existem receitas certas ou erradas, no sentido em que nenhuma autoridade médica, científica ou económica consegue responder com certezas. Considero, sim, que, sobretudo, há que liderar politicamente, apontando caminhos e razões fundamentadas para as escolhas, com transparência e firmeza, no sentido de induzir confiança nos processos adotados, já que, de uma forma ou outra, com maior ou menores perdas, mais ou menos tempo, todos os países acabarão por saber lidar com o vírus.  

A República Popular da China representa um exemplo extraordinário que não está certo nem está errado — foi o caminho e o tempo adequados à sua cultura e processos. O que importa é que esse caminho foi percorrido com grande vigor e confiança e como resultado tem a pandemia controlada. 

Estou certo de que o povo chinês retomará agora a actividade económica num abrir e fechar de olhos. Estiveram parados dois meses, mas não irão fazer pausas na Páscoa, verão ou demais períodos tradicionais de férias, com o objectivo de recuperar a economia e lutar pelo estilo de vida que ambicionam para si e para os seus próximos. 

Não posso deixar de utilizar este oportunidade para referir em particular o papel da comunidade chinesa em Portugal, que desde cedo percebeu o real perigo do surto, criou de forma privada e muito organizada mecanismos para colocar em isolamento qualquer membro da sua comunidade proveniente da China, protegendo-se a si próprios e portugueses, mas também contribuindo dessa forma para atrasar a chegada da Covid-19 a Portugal.  

Estamos a viver uma era histórica com desfecho incerto. Estou certo de que Portugal tem à sua frente os líderes políticos à altura do desafio e conto por isso com a sua liderança corajosa e escolha dos caminhos mais ajustados para juntos ultrapassarmos este enorme desafio.

Opinião de Bernardo Mendia, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Hong Kong, ao Ni Hao Portugal. 

Deixa uma Resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *